de olho no mensalão

pelo Movimento 31 de julho


Saudades de 2012

Artigo Saudades de 2012 em 11-01-2013 - O Globo - Opnião - 17Publicado no jornal O Globo em 11 jan 2013

ANA LUIZA ARCHER E ALTAMIR TOJAL

O Brasil colecionou importantes vitórias para a democracia no ano passado. Houve o reconhecimento dos poderes do Conselho Nacional de Justiça para fiscalizar o Judiciário, a constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa, a vigência da Lei do Acesso à Informação e o julgamento do Mensalão. Houve também frustrações como a pizza do Cachoeira, a desmontagem da Comissão de Ética da Presidência e a crescente submissão do Congresso Nacional ao Executivo.

As vitórias de 2012 tiveram o empurrão dos brasileiros que fizeram a diferença atuando nas redes sociais e nas ruas, denunciando a relação direta da corrupção com a injustiça social, a degradação dos serviços públicos e a ameaça à democracia. Mas o bom resultado para a cidadania acuou personagens poderosos. A aliança de oligarquias conservadoras, políticos corruptos, empresários desonestos e mentes totalitárias não tem interesse na justiça e na democracia. É uma máquina gigantesca apoiada pela propaganda e pelo silêncio e cumplicidade de beneficiários de verbas, patrocínios e bolsas.

Com exceção de setores da imprensa, da Justiça e do Ministério Público, tudo parece dominado por esse sistema de poder. A visão crítica na sociedade foi enfraquecida e aumentou a desconfiança pela política. A corrupção tem efeito devastador: quanto mais cresce, mais desencanta o eleitor e enfraquece a cidadania.

O ano de 2013 começa com José Genoino, condenado pelo Supremo, assumindo vaga de deputado e xingando jornalistas de “torturadores modernos’! Se o ex-presidente do PT está sendo torturado é por sua própria consciência. Chega também a notícia de que Renan Calheiros volta à presidência do Senado. Escárnio! Há a “ameaça” de condenados do Mensalão e acusados do Rosegate de desmoralizar o STF e impor o controle da mídia, que em bom português quer dizer censura à imprensa. E está na agenda do Congresso Nacional a PEC 37, ou Lei da Impunidade, que retira do Ministério Público o poder de investigar.

É preciso consolidar as vitórias de 2012 e evitar retrocessos. Hoje predomina no país um forte sentimento de repulsa à corrupção e à impunidade, mas ainda é grande o ceticismo quanto danças nessa realidade. Mesmo o cumprimento das sentenças do Mensalão parece quimera.

No ano novo dos nossos sonhos, Genoino e os outros deputados mensaleiros renunciarão aos mandatos. O Senado não aceitará a volta de Calheiros. As penas do Mensalão serão cumpridas. A presidente Dilma fará faxina de auxiliares corruptos antes de os escândalos serem publicados na imprensa. E indicará um novo ministro para o Supremo tão independente como Joaquim Barbosa. O PT fará autocrítica e abandonará projetos totalitários, como o controle da mídia. E o Congresso derrubará a Lei da Impunidade.

Mas o mundo real do poder não se comove com sonhos e desejos. A parcela inconformada da população é cada vez maior, mas vive na orfandade política, não se sente representada por líderes, partidos e mesmo organizações tradicionais da sociedade. O jogo ficou mais pesado. Campanhas na Internet e ações nas ruas ajudam mas não bastam. Vemos, neste começo de 2013, apostas da oposição no enfraquecimento da economia e na divisão do campo político no poder, com vistas à eleição de 2014.

Mas não vemos políticos e entidades importantes mobilizando a população para a defesa da democracia. Sem isso, corremos o risco de ter saudade do ano velho.

(Ana Luiza Archer e Altamir Tojal são coordenadores do Movimento 31 de Julho Contra a Corrupção e a Impunidade)

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Nós e as eleições

“Chegou a hora desta gente bronzeada mostrar o seu valor”

O Movimento 31 de Julho, focado na luta contra a corrupção e a impunidade, entende o compromisso político de estender essa luta também às eleições municipais do Rio de Janeiro e de todo o Brasil no próximo dia 7 de outubro. Por apartidários, não nos cabe indicar candidatos, e longe de nós a intenção de ensinar como votar, mas apenas, como formadores de opinião, destacar alguns pontos importantes na escolha dos prefeitos e vereadores a quem confiaremos as nossas cidades e representações legislativas por 4 anos, sem chance de “recall”.

– Ao contrário do que se costuma argumentar, ninguém é culpado por ter colocado um safado nos governos ou nas câmaras legislativas através do voto. Simplesmente porque o político pilantra nunca se apresenta ao eleitor como tal. Daí, a importância de não repetirmos os erros.

– Votar branco ou nulo, nem pensar porque só favorece aos corruptos.

– A Lei da Ficha Limpa, conquista da cidadania, veio para impedir/dificultar que corruptos se elejam. O TSE disponibilizou uma ferramenta que ajuda os eleitores saberem se o candidato é ficha limpa. Cabe a nós exercer esse direito e banir os fichas sujas da política, consultando o TSE no link , aqui

– A educação de um povo é a base de tudo e a Constituição Brasileira determina que todos os municípios têm que aplicar 25% de todas as receitas em educação, mas isso raramente é cumprido. Para exemplificar, o Rio de Janeiro só aplica 18,5%. Nossas escolhas devem exigir compromissos dos candidatos em fazer valer essa obrigação constitucional.

– Também vale consultar os sites da Transparência Brasil do Projeto Excelências (aqui) e do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (aqui), entre outras iniciativas que oferecem informações sobre políticos e orientações para evitar o voto nos ficha-suja.

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala nem participa de acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, da moradia, do sapato e do remédio dependem de decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito, dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política nasce a prostituta mirim, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra e corrupto.” Bertolt Brecht